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Histórias Irreais

São pedaços de vida, são desabafos de uns e outros, são partilha

São pedaços de vida, são desabafos de uns e outros, são partilha

Por aí abaixo

É visto no bairro por quase todos, saco de plástico na mão, sujo, olhar distante e pede principalmente cigarros.

Quase todos o "conhecem", todos sabem a história, e dizem, é assim a vida. Não tem mais de 50 anos.

 

Mais novo dizem, foi bem apessoado, era um dom ruan, conta quem o  conheceu bem, mas um desgosto de amor e o vinho, fizeram dele um farrapo humano.

Os amigos de outrora afirmam, não teve cabeça, agora é o corpo que paga.

 

Peço a quem o conhece para me contar o que se passou.

Dizem-me com ar triste e olhos transparentes:

- Oh minha filha, conta-se rápido, trabalhava na extinta fábrica de chocolates, e era um pinga amor, oferecia uma caixa de chocolates e dois dedos de conversa e pronto, lá caia mais uma.

Até que um dia conheceu uma que nem com um caixote de chocolates o quis, começou a beber, perdeu emprego, casa e como não tinha família, foi por aí abaixo.

 

 

sem abrigo.jpgAfinal é tão fácil irmos por "aí abaixo"...

 

 

 

 

 

Dias felizes

Casaram faz um ano, cada vez que os vejo estão de mãos dadas, sorriso no rosto e olhar carinhoso.

Vejo-os muitas vezes, no jardim, no café, pelas ruas do bairro.

Conhecem-se há uma vida, brincaram em crianças, ainda namoriscaram em miúdos, a vida separou-os.

Casaram, tiveram filhos e foram felizes, separados por muitos quilómetros, que ao fim de sessenta e poucos anos de vida, se encurtaram.

Quis o destino que após terem ficado viúvos acabassem no sitio que os viu nascer.

Re-apaixonaram-se e casaram, vivem dias felizes, pelas ruas e jardins do bairro.

 

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Na praça

Ainda não eram 8 da manhã, chego à praça, existe já burburinho na bancada do peixe.

Aproximo-me e vejo o porquê do alvoroço, duas peixeiras discutem o preço do carapau, uma vende mais barato que a outra e isso não pode ser, diz a outra.

Sigo para as bancadas da fruta e oiço duas amigas a comentarem a "peixeirada".

-Eu bem te digo Arminda, foste parva, devolvias o carapau e compravas o mais barato.

- Oh Manuela, mas já estava pesado no saco e tudo, não vi o preço até tu dizeres.

- Eu sei porque aquela vende mais caro, sei muito bem, sustenta 2 filhos as noras e 5 netos, alguém tem de pagar.

- Manela não sejas má língua, os pobres moços não têm trabalho, e não têm culpa de terem filhos, têm de se entreter.

- Arminda tu és mas é parva, entretenham-se a amanhar peixe aqui, estão na cama até o meio dia. Que grande parva me saíste.

- Mas estás a chamar parva a quem? Oh Manela não me irrites mais.

- A ti claro, contribuis para o sustento destes marginais e não refilas, irritada estou eu, parvalhona, pagas e não bufas.

-O dinheiro é meu, faço o que quero, querem lá ver, o que tens tu com isso, vou para casa, não estou para te aturar.

- Vai vai, eu vou contigo, mas não me digas nada.

 E vão as duas, a discutir praça afora, as duas peixeiras acertaram o preço igual, e reina a paz na peixaria.

 

Decido ir comprar carapaus.

 

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Sonhar alto

Sentada junto a um pequeno largo, onde é costume os miúdos jogarem, miúdos e graúdos por vezes.

Um mais pequeno chorava encostado ao muro, meti conversa com ele :

- Que se passa? porque choras tu?

Ele meio ranhoso, olhou-me fungou duas ou três vezes e responde :

- São os putos, não me deixam jogar, dizem que sou muito pequeno.

E era, mais pequeno pelo menos do que os que estavam a jogar, cheguei mais perto, e digo o óbvio :

- E és, e podem aleijar-te.

Ele olha-me com um olhar trocista, limpa o ranho ás mangas e diz muito rápido:

- Oh dona, eles não me deixam jogar porque sou melhor que eles, muito melhor, não é por terem medo de me aleijar.

- Ai és melhor? muito mesmo? e porque dizes isso?

- Eu sei que sou, e quando eu for um CR, eles vão querer ser meus amigos, mas eu não quero.

Eu sorri mediante aquela miniatura de gente com sonhos tão altos e respondi:

- Depois esqueces isso, os amigos são assim, de vez em quando zangam-se.

- Não, amigos apoiam-se, se fossem meus amigos deixavam-me jogar.

Foi-se embora, meio a fungar ainda.

 

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Afinal estamos sempre aprender, até com uma criança de  6 anos.

 

Consolada

É minha vizinha, conheço-a desde que me lembro, ás vezes ao fim do dia vejo-a nos bancos que existem junto ao prédio.

Ela porque vive só e gosta de ver pessoas como costuma dizer, eu porque gosto de estar com estas pessoas.

Pergunto eu, - Dona Conceição, como vai essa saúde?

- Oh filha nem sei bem, a médica está sempre a inventar, tenho de tomar dois comprimidos ao dia tu vê lá.

Eu que tomo 3 comprimidos por dia e tenho metade da idade, disse-lhe:

- Deixe lá eu também tomo, o que interessa é que se sinta bem.

- Eu sinto-me bem, tenho pena é de não poder beber a minha pinguinha, mas ás vezes engano, não os tomo e bebo.

- Engana-se a si dona Conceição.

- Eu sei filha, mas sabe tão bem. Assim comá sim eu não tenho ninguém a quem dar satisfações e olha, quando morrer vou consolada.

Tentei dizer algo, tentei pensar em algo, mas não saiu nada, com 89 anos, sem marido e filho (morreram) realmente poucas restrições devemos impor, é um consolo, diz ela.

 

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Injustiças

Novamente no meu jardim, meu e de muitas centenas que diariamente o frequentam, uma enciclopédia de vida existe neste jardim, como deve ser em tantos outros por esse mundo fora.

 

Uma mãe sentada no banco, abana suavemente o carrinho de bebé, um casal namorisca num outro banco, umas crianças tentam apanhar os pombos que depenicam no chão e no mais afastado um senhor já idoso com um cigarro numa mão e a outra no queixo, olha para lado nenhum, olhar fixo no tempo, olhar que está cheio de recordações e saudades, é o escolhido.

 

Sento-me e digo, - não o quero incomodar, mas parece-me triste.

Olha para mim desconfiado e responde:

- Estou cá com os meus pensamentos.

- Em que pensa?

- Olhe penso nas injustiças da vida, na minha Maria que me deixou só ao fim de tantos anos, que ma levaram malvadas.

Surpreendida por ter resposta e tão completa atrevo-me a dizer:

- Levaram? quem?

- As malditas doenças, primeiro foi os diabetes, depois a cegueira a seguir um ataque cardíaco e foi-se.

Consternada disse que lamentava. Ele responde um sussurro, que entendi como obrigada e fica outra vez a olhar para lado nenhum.

 

Levanto-me e ele olha-me, como se me visse pela primeira vez e diz:

- Dou-lhe um conselho, viva, viva tudo e aproveite.

Voltou a baixar a cabeça e ficou perdido novamente nos pensamentos.

Fui embora, fui viver.

 

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Ser feliz

Em pé, junto à cerca de madeira, observava o neto, olhar doce, ia dizendo com uma voz cheia de carinho:

- Bernardo anda para mais perto da avó, não vás para a água.

Ele ria e saltava nas poças de água existentes na margem do lago.

Aproximei-me e ri também, da felicidade simples de salpicar as galochas, a avó acabou a rir também.

Perguntei olhando aquele olhar simples e directo:

- Toma conta do seu neto?

- Sim, nunca andou em infantários, sempre comigo, a minha filha e o marido têm trabalhos importantes, são muito ocupados.

- E a senhora, está só?

- O meu Alfredo morreu uns meses antes do neto nascer, nunca o conheceu, ele ia adorar brincar com o neto.

-  Nunca pensou viver de outra maneira?

-  Não minha filha, o meu neto é a minha vida, Só tenho a minha filha e a ele de família, vivo para eles.

- Vive sozinha?

- Vivi alguns anos, mas agora com a idade e o meu netinho a precisar de mim, mudei para casa da minha filha, tem uma boa casa, e uma vida feliz.

- E a senhora? é feliz?

- Sou pois, ter o privilegio de criar uma filha, e um neto não é para todos, Sou feliz com a felicidades deles.

 

 

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A felicidade resume-se a isso afinal. ser feliz, ao fazer alguém feliz.

 

Mais info: https://www.terapiasdamente.pt

No miradouro

Decidi tirar fotos no miradouro perto de casa, sitio com uma vista fantástica, um pequeno jardim e sempre bastante gente, além de turistas, os locais.

Duas senhoras já idosas conversam, tento aproximar-me sem dar muito nas vistas.

Elas ao darem por mim, (afinal dei nas vistas) dizem,- Sente-se menina, ao pé das duas velhotas.

- Anda a tirar fotografias?

- Ando, mas também gostava de saber sobre as senhoras.

- Saber o quê? somos irmãs e moramos juntas toda a vida.

Eu já curiosa, digo :

- Então mas nunca casaram?

Responde a outra:

- Sim eu casei, a minha irmã é que não, mas fiquei viúva bem cedo, graças a Deus.

- Graça a Deus porquê?

- Ai menina sabe lá, levava porrada quase todos os dias, mas só durou 10 anos.

- Mas 10 anos não é muito tempo?

- Repare, vivemos juntas desde que nascemos, os paizinhos morreram num acidente tínhamos nós 19 e 21 anos e nunca nos separamos, mesmo depois de casada ficamos juntas, e o meu marido pensava que até na cama era para ser as duas.

- Mas nunca alinhamos nessas badalhoquices, ele bebia e batia-me. E ás vezes à minha irmã, quando se metia.

- Morreu de quê?

- Da bebida menina, cirrose.

- Então e nunca trabalharam?

- Sempre, trabalhamos a dias primeiro, depois fomos modistas, em casa as duas, nunca precisei de sustento de um homem, casei por causa do carinho percebe?

- Percebo, e agora?

- Agora temos o carinho uma da outra como sempre, e chega.

 

Ficaram lá, de braço dado, a contemplar a paisagem, ás vezes o carinho basta.

 

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Olhar cúmplice

Estavam juntinhos num banco, sentei-me na ponta e sorri para os dois.

Aninhados retribuíram, eu meio encabulada disse, - gostava de saber a vossa história.

Olharam-se, um olhar cúmplice, e diz ela:

-A nossa história é normal menina, como tantas outras, é jornalista?

Pensei logo que o normal pode ser tão anormal, e respondi:

- Não, apenas uma curiosa, tenho um blog e gosto de escrever sobre histórias de vida.

- Escreva lá então que somos casados há 45 anos e não podemos viver um sem o outro.

Ao olhar para eles senti que era verdade, e disse:

- E acha isso normal?

- Claro que sim, para nós é, tão normal como ter sede ou fome, somos um do outro, é assim.

Sem resposta agradeci e fui à minha vida, a pensar em como a vida pode ser simples.

 

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No café

Numa mesa afastada no café, parecia alheio a tudo ao redor.

Pedi licença, queria apenas beber um café, sorriu-me, dentes amarelos rosto enrugado.

Sente-se menina, eu até gosto de ter companhia.

Antes de saborear o café, atirei para o ar:

- O que faz o senhor aqui sozinho?

Olhou para mim, voltou a sorrir, suspira e diz:

- Gosto de vir a este café, vim durante 40 anos, mais a minha Amélia.

Perdeu-se em pensamentos novamente, eu insisto:

- Que aconteceu?

Olhou-me, sem sorrir agora e diz:

- Deixou-me, depois de tanto ano, embirrou que queria recuperar a vida que perdeu comigo.

Fiquei sem palavras, só o olhei com cara de parva provavelmente, continuou:

-Sim, agora depois de velha é que é gaiteira, em nova nunca se arrumou, agora parece uma árvore de Natal.

Mas eu continuo a vidinha de sempre, ele vai vir cá menina, acredite.

 

 

Acabei o café, despedi-me e saí, e acreditei.

 

 

 

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Vitória Antunes

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