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Histórias Irreais

São pedaços de vida, são desabafos de uns e outros, são partilha

São pedaços de vida, são desabafos de uns e outros, são partilha

Inocência

Durante muitos anos Dina foi prostituta.
Conheci-a em miúda, para nós era a mulher mais bonita que víramos na vida.
Na nossa inocência, a mini-saia vermelha de pele com colete igual e blusa com enorme decote e o salto agulha era o expoente máximo de beleza.


Aliado à simpatia e carinho que nos dispensava, era quem queríamos ser quando fôssemos grandes, nós a miúdas, para eles era assim a mulher dos sonhos. Lembro de ela nos fazer tranças, sentada nas escadas da entrada do Pátio, onde nos reuníamos ao fim da escola.
Aparecia por lá quase sempre, com pacotes de leite e bolachas caseiras, distribuía por todos e ficava ali a ensinar-nos a maquilhar, pentear e a dar-nos sábios conselhos, regra geral para termos cuidado com os homens. Fazia-nos rir.
Depois crescemos e percebemos que os constantes carros parados à porta da Dina eram apenas clientes.
Sozinha, com parentes longe de Lisboa sobreviveu a vender o corpo, era o que tinha de melhor, dizia ela muita vez.
Mas um dia encontrou alguém, apaixonou-se, e deixou a prostituição, dedicou-se ao lar, ao marido, arranjou um trabalho e era feliz. Achávamos que sim.
Anos mais tarde em visita à família, vi ambulância e carros da polícia na rua. Muita gente, conversas, gritos, a Dina saiu numa maca.


Vim a saber que o marido lhe batera. Que lhe batia vezes sem conta.
Quando a fui visitar ao hospital, bastante machucada e sem a juventude e vivacidade de outrora, conversamos.
Soube então que nunca foi verdadeiramente feliz, no princípio uns meses talvez, depois passou a ser agredida e humilhada constantemente. Já mal saía, tinha vergonha, tinha a vergonha que nunca tivera como prostituta.


Dina largou o marido, depois de fazer queixa na polícia e pedir ajuda a uma instituição, só voltou para casa dela, 1 ano depois, tinha medo. Depois de voltar foi ameaçada, era perseguida na rua, em casa, fez queixa muitas vezes, vezes demais, o marido nunca foi preso. Perdeu o medo, não cedeu, enfrentou-o inúmeras vezes, foi salva umas quantas por vizinhos.

O destino encarregou-se de ajudar, numa discussão agrediu quase até à morte outra pessoa, como tinha feito com Dina, mas dessa vez foi preso finalmente, teve paz renasceu e sobreviveu.
Agora vive na sua casa, com algum dinheiro que tinha amealhado, nunca o marido soube desse dinheiro. E costuma estar à janela a conversar com quem passa , cigarro na mão que nunca fuma e sempre sorridente e feliz.

 

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Vitória Antunes

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